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Conferência sobre o Investimento Externo em Timor-Leste, Alocução de Abertura do primeiro-ministro, Mari Alkatiri, Dili, 28 de Novembro de 2005

Em primeiro lugar, quero dar as boas vindas a todos aqui presentes neste importante evento que de certeza marcará um novo capítulo no processo de construção da Nação Timorense. A importância da data escolhida para a realização desta Conferência sobre o Investimento Externo em Timor-Leste foi propositada pois foi há 30 anos que foi declarada a Independência Nacional, após quase 500 anos sob domínio colonial. Hoje, porém, quero transmitir a clara mensagem neste foro de que a nossa gloriosa Independência, duas vezes conquistadas, só será consolidada na medida em que possamos criar uma economia forte e dinâmica, capaz de gerar riquezas a bem dos agentes económicos mas sobretudo para a melhoria da qualidade de vida do Povo Timorense. Estamos conscientes, pois, que a árdua tarefa de criar uma economia robusta e operante, capaz de estimular novos investimentos, criar empresas e gerar emprego sustentado só será feita com a indispensável pareceria estratégica do investidor privado, tanto nacional como externo.

O Governo a que tenho a honra de dirigir têm-se dedicado de forma incansável para criar um ambiente favorável ao investimento privado, ambiente esse que reconhece o protagonismo do agente económico privado como força motriz do crescimento económico. Desta feita, estamos empenhados no processo de tomar medidas que visam criar um enquadramento propício para o desenvolvimento do sector privado. Neste particular, aproveito para realçar as principais realizações dos últimos dois anos a começar com a adopção de uma política de promoção do investimento privado pelo Governo em finais de 2003, a passagem pelo Parlamento Nacional da Lei sobre Sociedades Comerciais em princípios de 2004, bem como duas leis sobre investimento privado em Junho de 2005 - uma regulando o investimento nacional e a outra o investimento externo. Os respectivos regulamentos foram passados pelo Governo logo a seguir no mês de Julho passado, criando assim um quadro claro, célere e transparente que regula o processamento dos pedidos e a outorga da autorização de investimentos dentro de um prazo máximo de 30 dias. Outrossim, os regulamentos criaram também dois institutos públicos, responsáveis pela promoção e acompanhamento do investimento nacional e do investimento externo, respectivamente. Ao instituto, TradeInvest Timor-Leste, entidade organizadora deste evento, compete a promoção do investimento externo bem como das exportações.

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Creio que todos aqui presentes conhecem um pouco o estado lastimável do País, em geral, e das infra-estruturas económicas, em particular, que herdamos após os trágicos eventos de 1999, na sequência do resultado do Referendo em que a esmagadora maioria do Povo Timorense proclamou ao mundo o seu desejo e o seu direito inalienável de há longo frustrados para criar a nossa Pátria, a República Democrática de Timor-Leste. O nosso País é ainda muito jovem no rol das nações, contando apenas com três anos e meio de vida como nação independente, após a reconquista soberana da nossa Independência, a 20 de Maio de 2002. A data original, que hoje comemoramos, em parte com este importante evento, foi a 28 de Novembro de 1975.

Reconhecemos que temos grandes desafios pela frente ainda por ultrapassar, em que o combate à pobreza, ao desemprego e aos males que acarretam, prefiguram-se como os principais obstáculos. Porém, o debelar destas mazelas profundas que hoje fustigam o Povo Timorense constitui principais prioridades de acção deste Governo que está empenhado em procurar soluções inovadoras para os combater, criando, no seu lugar, uma vida melhor para as nossas populações.

Como já o dissemos em outras ocasiões e nunca é demais repetir, Timor-Leste é um País pequeno e hoje ainda pobre. Embora tenhamos algum recurso natural, sobretudo no sector do gás e do petróleo, a pequena base dos nossos recursos humanos é ainda muito pouco valorizada. Com base no recente censo populacional, constatamos que o nosso País tem uma população muito pequena de apenas 925.000 habitantes.

A nossa economia destaca-se pela sua assimetria em termos comerciais. Os dados do balanço comercial do ano passado mostraram que importamos grande parte dos produtos que consumimos. A nossa exportação é ainda muito fraca e contribui para um balanço comercial altamente deficitário, cobrindo menos de cinco por cento do volume das nossas importações. Porém, com a entrada em operação este ano do campo de gás Bayu-Undan no Mar de Timor, prevemos um apreciável aumento das nossas receitas, o qual de certeza contribuirá sobremaneira para inverter o balanço comercial para o ano que vem.

Tradicionalmente, a nossa economia tem sido principalmente de cariz agrícola, tendo o café destacado como principal produto de exportação dos últimos tempos. O café timorense é hoje um produto de reputada qualidade em certos mercados internacionais, estando cada vez mais a conquistar uma maior fatia do nicho de mercado do "café orgânico" nos mercados da América do Norte e da Europa. Porém, do total do café produzido em Timor-Leste, exportamos apenas 30 por cento da nossa colheita pelo que existe ainda uma significativa margem de expansão das exportações desse produto.

O gás e o petróleo, embora de quantidade exacta ainda por asseverar, prometem contribuir grandemente para a nossa receita. Porém, o gás e o petróleo são recursos energéticos esgotáveis e de capital intensivos pelo que a criação de postos de trabalhos neste sector não será suficiente para colmatar o alto nível de desemprego do País, sobretudo entre a camada jovem. Por isso, nós precisamos encontrar bases mais sustentáveis para promover o crescimento da nossa economia, fazendo uso de alguma vantagem comparativa nos sectores da agricultura, da floresta, da pesca, no turismo bem como nos serviços a montante e a jusante do sector petrolífero. De igual modo, estamos plenamente conscientes da necessidade de aplicar bem as receitas provenientes dos recursos petrolíferos para assegurar um desenvolvimento sustentado de Timor-Leste a bem das gerações presentes e futuras. Para o efeito, criamos um Fundo Petrolífero, inspirado no bem sucedido modelo norueguês, a que denominámos de "Norway Plus" (Noruega Mais).

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

Com o nosso Plano de Desenvolvimento Nacional, adoptado em 2002, traçámos as linhas mestras do nosso desenvolvimento económico, cujo eixo central consiste na criação de uma economia de mercado, competitiva e eficientemente regulada. Pretendemos com esta estratégia estimular o desenvolvimento do sector privado nacional bem como atrair e reter o investimento externo. Reconhecemos que o mundo globalizante de hoje é altamente competitivo em termos económicos e um país recém-nascido, como é o nosso caso, parte com grandes desvantagens, tendo à partida enormes desafios pela frente. Porém, não nos desencorajamos perante tal realidade mas antes sentimo-nos ainda mais empenhados na nossa determinação para criar condições favoráveis que contribuam para o posicionamento competitivo de Timor-Leste na concorrência para atrair o investimento externo e promover a exportação de bens e serviços do território nacional.

Durante os próximos dois dias, V. Exas. irão apreciar o regime e o enquadramento do figurino de promoção do investimento privado que criámos para responder duplamente aos requisitos do País bem como aos interesses do investidor privado, tanto nacional como externo. Enquanto Governo, estamos atentos e não temos ilusões do objectivo e interesse do investidor privado em maximizar o retorno no seu investimento e gerar riquezas para a sua empresa. Nós também contamos com o êxito desta estratégia pois quando o privado cria riquezas dentro de um quadro responsável e transparente toda a sociedade fica beneficiada, tanto o investidor como o governo, os trabalhadores, suas famílias e, de uma forma geral, todos aqueles que beneficiem do efeito multiplicador da riqueza empresarial criada.

Como V. Exas. irão constatar das apresentações que serão aqui apresentadas o regime de investimento privado que concebemos e adoptamos visa dar resposta a dois grandes desafios que hoje enfrentamos qual sejam: (1) reduzir o alto índice de pobreza e (2) criar emprego sustentado para combater a elevada taxa de desemprego no País. Para o efeito, o Parlamento Nacional, sob proposta do Governo, consagrou incentivos importantes para estimular novos investimentos por parte do investidor externo, quer sozinho, quer em parceira com o investidor nacional, a fim de se criarem postos de trabalho para fazer face não só ao grande número de desempregados que hoje existem no País, mas para contribuir de forma significativa para a criação de oportunidades de emprego sustentado para os mais de 15.000 jovens que anualmente entram para o mercado de trabalho em Timor-Leste.

Porém, reconhecemos ainda que todos os "inputs" necessários à actividade empresarial custam mais caros em Timor-Leste do que nos países concorrentes, prejudicando não só o desenvolvimento do tecido empresarial no País, como aos nossos consumidores também. Como pequeno País que somos, nada podemos fazer para baixar os custos dos bens importados até a sua chegada aos nossos portos e aeroportos. Mas algo pode o Governo fazer para diminuir os custos internos, desde que a bem do desenvolvimento empresarial, visando combater o desemprego e a pobreza. Por isso, avançamos com um pacote aliciante de incentivos que julgamos poder amenizar os altos custos de factor de produção a que estão sujeitos os agentes económicos deste País. Posso vos assegurar que fomos criticados duramente por aqueles que questionaram o porquê dar incentivos fiscais aos investidores privados? Mas a nossa resposta foi muito simples: criar uma empresa em Timor-Leste e operar uma actividade económica sustentável é pelo menos 30 por cento mais caro aqui do que nos países vizinhos! Por isso, com o pacote de incentivos que adoptamos, embora não tendo respondido cabalmente aos nossos desígnios, pelo menos reduziu em parte essa disparidade de 30 por cento para talvez 15 por cento, tornando assim o nosso País um pouco mais competitivo como local de investimento externo. Por isso, entendemos diminuir os custos de produção, tanto para a criação de novas iniciativas empresariais como para a expansão de unidades económicas já existentes. Claro que isso por si só não basta. Ao mesmo tempo, e em conformidade com o enunciado na nossa política de investimento privado, adoptamos também mecanismos de transparência e de celeridade por forma a diminuir os custos administrativos para criação e operação de actividades empresarias em Timor-Leste. Assim, o quadro regulador adoptado para processar os pedidos de investimento externo estabelece um prazo máximo de 30 dias, a contar da data de submissão do dossier completo pelo proponente.

Estamos cientes daquilo que oferecem outros países concorrentes. Sabemos que não podemos e nem quisemos adoptar medidas de certos países que subsidiam grandemente as suas economias para manter certos custos artificialmente baixos, como sejam a mão-de-obra, o combustível, a energia eléctrica, entre outros. A nossa economia baseia-se no princípio da lei do mercado e norteia-se pela concorrência e competitividade. Partindo de uma base fraca, como é o nosso caso, teremos naturalmente que ser mais criativos do que os nossos concorrentes.

Minhas Senhoras e Meus Senhores:

O Governo entendeu contribuir com a sua quota-parte para estimular o investimento privado nesta terra, tanto proveniente de recursos internos mas sobretudo, nesta fase do nosso desenvolvimento, com recursos e competências provenientes do exterior. O regime de investimento externo sob apreço é uma demonstração clara e sem reticências, de até que ponto estamos dispostos a dar um salto qualitativo para criar emprego e combater a pobreza com os instrumentos ao nosso alcance. Contamos com a parceria do sector privado, tanto nacional como externo neste desafio, pois estou certo que juntos haveremos de encontrar as soluções para desenvolver o potencial económico deste País.

Este Governo aprecia o esforço feito pelos empresários que apostam neste País. Tanto empresários nacionais como estrangeiros têm contribuído de forma significativa nos últimos anos para assegurar o fornecimento de bens e serviços necessários para satisfazer as necessidades das populações bem como do contingente internacional que nos tem apoiado e assessorado na construção de um Timor-Leste livre e próspero. O Governo continuará a contar com a parceira do investidor privado e, em especial, com o contributo estratégico que o investidor externo irá desempenhar no desenvolvimento da nossa economia, a curto, médio e longo prazos.

Por isso, neste foro de diálogo aberto e franco, estou certo que V. Exas. irão debater ideias novas e contribuir com valiosas sugestões que merecerão toda a consideração do meu Governo. Podem crer V. Exas. que medidas acertadas serão tomadas para implementar o caminho já traçado pelo regime de investimento privado ora criado.

Para finalizar, queria agradecer a vossa honrosa presença aqui e aproveitar também esta oportunidade para agradecer aos organizadores desta Conferência, augurando os melhores sucessos nos trabalhos dos próximos dois dias. Faço votos que os vossos trabalhos sejam profícuos e que atinjam todos os objectivos almejados neste importante evento.

Declaro aberta esta Conferência sobre Investimento Externo em Timor-Leste.

 

 

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