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Um sistema simplificado, favorável aos pobres, favorável
ao desenvolvimento empresarial e à criação
de empregos, 14 de Março
"Logo que assumi a responsabilidade de chefiar o II Governo
Constitucional pedi ao PNUD e ao FMI um estudo sobre uma possível
reforma radical do sistema fiscal.
Após consultas alargadas e cuidadosa consideração,
apresento hoje uma proposta para um novo sistema fiscal para Timor-Leste
que é simplificado, a favor dos pobres e que incentiva
o sector privado, o investimento estrangeiro e a criação
de empregos. A minha proposta vai além das recomendações
do FMI.
Quando tomei posse como Primeiro-Ministro, em 10 de Julho de
2006, disse que o governo que ia liderar tentaria servir os interesses
dos pobres, seria um governo para os pobres, estaria na vanguarda
da luta contra a pobreza.
Prometi usar o dinheiro disponível para dignificar o ser
humano, dar-lhe esperança, dar-lhe alimento, roupa e um
tecto.
A receita não petrolífera total do Estado representa
menos de 5% da receita petrolífera, sendo os impostos indirectos
sobre bens 1,19% desta última, o imposto de transacções
0,64%, os impostos sobre empresas 0,63%, as taxas de importação
0,59%, o imposto sobre rendimento pessoal 0,49%, as taxas de retenção
0,46% e a taxa de serviço apenas 0,36%.
Para quê, então, preocupações com
a cobrança de uma receita tão diminuta? Gastamos
mais, talvez, a tentar cobrar estas taxas e impostos do que o
montante efectivamente arrecadado.
Com receitas de gás e petróleo superiores a $1.000
milhões de dólares norte-americanos, considero que
uma forma de tentar estimular a economia será aumentar
o rendimento disponível das famílias através
de um sistema fiscal novo, melhor talhado para favorecer, nos
anos vindouros, os objectivos do desenvolvimento de Timor-Leste
e, simultaneamente, mais compatível com o ambiente globalizado
em que as empresas se movem.
A minha convicção sobre as características
de um novo sistema fiscal para o nosso país, leva-me a
defender basicamente uma redução drástica
e até a abolição pura e simples da maior
parte dos impostos e taxas.
Fiz consultas, quer a nível oficial, quer a nível
informal, com um vasto leque de peritos do Banco Mundial, do PNUD,
com académicos. Encomendei ao FMI uma avaliação
e propostas de um novo sistema fiscal para Timor-Leste. Nesse
processo consolidei a minha opinião, levando-me a propor
um novo sistema fiscal que é corajoso, racional e avançado.
1. É favorável aos pobres porque Timor-Leste tem
receitas petrolíferas significativas, pelo que não
tem de arrecadar receita a partir dos pobres ou das pequenas empresas.
2. É favorável ao desenvolvimento empresarial porque
Timor-Leste tem de estimular o desenvolvimento de um sector privado
forte. Isso implica estimular a criação de novas
empresas nacionais e o estabelecimento no nosso país de
empresas estrangeiras.
3. É simples porque Timor-Leste não deve absorver
muitos recursos humanos qualificados na operação
de uma máquina fiscal complexa ou no combate á evasão
fiscal. O governo e o sector privado têm de se libertar
do fardo que representa um sistema fiscal complexo.
Assim, solicitei à senhora Ministra do Plano e das Finanças
que instrua os seus funcionários para elaborarem um projecto
de novo sistema fiscal, ou procederem às necessárias
alterações da legislação existente,
baseando-se nas recomendações que a seguir apresento,
por forma a ser levado ao Conselho de Ministros e subsequentemente
apresentado ao Parlamento Nacional, que tem competência
exclusiva em matéria de política fiscal.
1ª recomendação: Abolir as tarifas, o imposto
de transacções e os impostos indirectos, tornando-nos
num "país de comércio livre".
Defendo esta medida porque Timor-Leste não arrecada grande
receita de tarifas sobre os produtos importados e, no entanto,
tais taxas representam um fardo administrativo. Na minha opinião,
como critério geral, Timor-Leste deve eliminar as tarifas
em todos os produtos importados.
Deverão considerar-se excepções no caso
de importações "indesejáveis",
como sejam os casos de produtos prejudiciais ao ambiente ou para
a saúde. Estes produtos indesejáveis devem ser claramente
listados e submetidos a uma elevada tarifa alfandegária
fixa.
Com a redução tarifária, deve ser tida em
conta a necessidade de compensar alguns produtores locais, para
que os produtores timorenses não fiquem prejudicados pelo
custo inferior dos produtos importados que competem com produtos
produzidos internamente.
2ª recomendação: Pessoas e empresas com rendimentos
inferiores a $1.000 dólares mensais devem ser isentadas
de imposto.
Esta medida cria um limiar de isenção de imposto
para pessoas de baixos rendimentos. Isto é absolutamente
razoável: não há motivo que justifique obrigar
timorenses pobres a pagarem impostos.
3ª recomendação: Fixar um escalão único
de 5-10% para os impostos sobre rendimentos individuais e empresariais.
Peritos prestigiados dizem-me que qualquer rendimento superior
a $1.000 dólares norte-americanos deve ser sujeito a uma
baixa taxa de imposto de 5-10%. Concordo com essas opiniões.
Penso que o Fundo Monetário Internacional (FMI) propõe
uma taxa relativamente elevada de 15-20%, para não parecer
encorajar a criação de "paraísos fiscais".
Mas considero também que Timor-Leste deve adoptar taxas
abaixo dos 15-20%. Em princípio, poderia adoptar uma taxa
0 sem condicionar a despesa do Estado, uma vez que a receita do
petróleo será mais do que suficiente. Mas há
razões que aconselham a adoptar uma taxa superior a 0,
tendo em conta um futuro em que Timor-Leste precise de receita
adicional. Por isso, considero razoável uma taxa de 5 a
10%, nas presentes circunstâncias.
A razão porque defendo a mesma taxa base para o imposto
sobre rendimentos pessoais e o imposto sobre rendimentos empresariais
é o facto de ser não apenas razoável, mas
também simples, e previnir tentativas de fuga aos impostos,
através de transferências de rendimentos entre contas
empresariais e pessoais.
4ª recomendação: Abolição da
taxa de 1% sobre a facturação das empresas.
Esta taxa não arrecada grande receita e é um fardo
administrativo. Deve ser abolida.
5ª recomendação: Simplificação
dos incentivos fiscais para investidores estrangeiros.
Reduzindo significativamente o nível dos impostos, reduz-se
significativamente a necessidade de incentivos destinados aos
investidores estrangeiros, isto é, a taxa base muito baixa
será incentivo bastante.
Os incentivos discricionários actualmente em vigor são
complexos e desnecessários. Com taxas base inferiores a
15% não haverá necessidade de incentivos adicionais
para as empresas.
6ª recomendação: Minimizar o recurso a medidas
indirectas e temporárias.
Tem havido propostas para introduzir medidas temporárias
de vários tipos. Tais medidas destinam-se ou a desencorajar
actividades indesejáveis (por exemplo, tarifas para reduzir
a importação de automóveis ou computadores)
ou a encorajar actividades desejáveis (por exemplo, encorajar
a contratação local de trabalhadores timorenses)
ou a compensar certos grupos (por exemplo, a redução
do preço da electricidade para instituições
que acolhem desalojados).
Após ouvir especialistas, considero que tais objectivos
devem ser prosseguidos com medidas de apoio "permanentes"
e "directas", em vez de medidas temporárias e
indirectas.
Poderemos usar medidas directas, como sejam um pagamento único
a pessoas deslocadas, em vez de medidas indirectas como a compensação
através de redução do custo de serviços
públicos. Devemos adoptar outras medidas permanentes, como
sejam níveis de taxação fiscal baixos, em
vez de períodos de três anos a taxa 0. As medidas
permanentes geram estabilidade e previsibilidade, alimentando
a confiança empresarial.
Medidas directas e permanentes são preferíveis
por serem claras, focadas nos objectivos para que são criadas
e menos susceptíveis de gerarem desperdício e corrupção.
Estas ideias para a reforma do sistema fiscal foram discutidas
com o Presidente Xanana Gusmão e o ex-Primeiro-Ministro
Mari Alkatiri. Ambos concordaram de uma forma geral com elas.
Na verdade, o Dr Alkatiri disse-me numa conversa recente que,
há dois anos, tinha querido uma revisão do sistema
fiscal como esta.
Acredito que esta minha proposta de novo sistema fiscal é
a proposta certa para Timor-Leste. É uma iniciativa que
tomo por considerar ser essencial para o bem do nosso país.
A mantermos quaisquer taxas ou impostos, eles devem recair apenas
sobre produtos ou actividades com risco ambiental ou de saúde
pública.
Infelizmente, o curto período do meu mandato como Primeiro-Ministro,
não me permite supervisionar a aplicação
de um sistema de impostos como o que defendo - favorável
aos pobres, favorável ao desenvolvimento das empresas,
simplificado e, simultaneamente, corajoso, racional, e avançado
em termos das necessidades futuras. Mas comprometo-me a lutar
pela adopção destas medidas, na minha qualidade
de simples cidadão ou em qualquer cargo que venha a desempenhar
no futuro, porque acredito que são medidas necessárias
e certas para Timor-Leste nesta fase do nosso desenvolvimento
como nação."
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